Hoje falo de uma música simples, agradável e acessível: "When I'm Sixty-four". Escrita por Paul McCartney quando este tinha apenas 16 anos, a sua letra pode ensinar-nos como um jovem pode saber exactamente que quer assumir um compromisso e como aproveitar pequenas coisas para o conseguir. Acima de tudo, esta pequena canção ensina-nos algo que se perdeu nesta minha geração e que nunca se devia ter perdido: O valor da família. O companheirismo entre marido e mulher, ou simplesmente entre parceiros. Numa geração onde metade ou mais de metade dos casais se divorciam, é difícil instituir bons valores em relação a estar numa relação. Não é habitual ouvir alguém dizer que é preciso dedicarmo-nos a amar e a cuidar de outra pessoa; que é preciso pôr o orgulho de parte e ter muita paciência, pois vamos perdê-la muitas vezes e ter de aprender que a outra pessoa é mais importante do que as nossas teimosias; que é preciso ter noção de que, se queremos casar e assumir um compromisso sério e constituir família com alguém, o compromisso será para sempre e ambos terão de fazer os possíveis e os impossíveis para conseguir alcançar isso. Há quem ouça isto se perguntar a um casal de velhinhos (digo isto com carinho e não em tom pejorativo), casado há 50 anos, como conseguiu fazer o casamento resultar. Pessoalmente, eu aprendi isto ao ouvir esta mesma música e a aplicar em situações hipotéticas os valores aqui descritos.
A letra é, resumidamente, uma carta de um jovem à sua namorada, propondo que ambos fiquem juntos, tendo uma vida pacata, mas agradável e completa. Se virmos a letra um pouco mais ao pormenor, podemos ver o que já referi acima.
"When I get older losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine?"
Na primeira estrofe temos a pergunta de, se daqui a muitos anos, ainda vão atentar a pequenas coisas como um cartão do dia dos namorados ou uma garrafa de vinho num dia especial, o que mostra dedicação mesmo após uma vida quase inteira juntos.
"If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door?"
Would you lock the door?"
"You'll be older too,
And if you say the word,
I could stay with you."
E agora, algo que muita gente parece não se aperceber: ao evelhecer ao lado de alguém, também nós vamos envelhecer.Também nós vamos ter manias, errar, refilar, ter todas as nossas falhas. Também nós vamos ficar mais envelhecidos fisicamente. Não é justo trocar alguém por um "modelo mais novo" apenas por a pessoa com quem se tinha comprometido estar a entrar numa outra fase. Ambos passam por isso e deviam aprender a envelhecer em conjunto e a apreciar fazê-lo.
O resto da música é apenas a mostrar como se pode ter uma vida bastante preenchida apenas ao lado de outra pessoa. O apreciar coisas simples, como o passar férias num local não muito caro, pois se precisa de poupar, não fazendo com que deixasse de ser agradável, pois estariam na companhia um do outro. Ou o estarem a tratar do jardim já com os netos a brincar perto deles, olhando os dois para a vida a dois que construíram.
E claro, o refrão, repetido ao longo da música:
"Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four?"
E claro, o refrão, repetido ao longo da música:
"Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four?"
O precisar da pessoa. Por muito que se diga que dependência numa relação não é saudável, eu penso que é também necessária. Não uma dependência extrema, mas é importante sentir que se precisa e ser quer estar com aquela pessoa. Faz apreciar um pouco mais tudo o que essa pessoa faz, por a falta dela se sentir tanto dessa forma. E isso leva a que se faça tudo sem esforço para que se fazer a cara-metade feliz.
E afinal, há alguém que, quando encontra alguém realmente especial, não deseje que seja mesmo assim, até que a morte os separe? Por muito incrível que pareça, é perfeitamente possível, basta que cada um assim o queira. O Paul McCartney escreveu tudo isto aos 16 anos e manteve todos estes valores na sua vida adulta. Lembremo-nos que, antes de todo o escândalo de divórcio, Paul McCartney teve um casamento duradouro e feliz, tal como retrata esta pequena carta em canção, com a sua primeira mulher Linda, até esta falecer em 1998. Se toda a gente aprender isto, quase toda a gente poderá ser feliz ao lado de quem mais gosta.